Considerações Metodológicas sobre a Técnica da Observação Participante

Fernando Manuel Bessa Fernandes

1. Introdução

Em minha experiência como professor de metodologia de pesquisa em cursos de pós-graduação em saúde coletiva, constantemente tenho assistido um razoável número de alunos afirmar que pretendem utilizar “observação participante” em seus estudos, sem efetivamente conhecerem a técnica e, o que é ainda mais curioso, sem nem mesmo ter definido o que gostariam de pesquisar.

Tal questão coloca-se para mim como um enigma que eu devolvo sempre aos alunos na forma de perguntas, no intuito de estimular a reflexão deles: O que viria antes, a definição das questões orientadoras de uma pesquisa, ou as técnicas a serem empregadas? Primeiro deveríamos recortar o objeto de pesquisa e estabelecer objetivos, e a partir deles, escolher quais técnicas seriam mais adequadas, ou o desejo de usar uma determinada técnica poderia direcionar o desenho da pesquisa? Porque uma técnica como, por exemplo, a Observação Participante, precederia o estabelecimento do desenho do estudo? Teriam as técnicas a capacidade de instituir um eixo de raciocínio sobre um problema para, a partir daí, desenvolver uma pesquisa?

Em outras palavras, por que optar por uma determinada técnica de levantamento de informações antes mesmo da definição das questões norteadoras e do reconhecimento próprio objeto de uma pesquisa? Há uma importante questão conceitual e metodológica a ser tratada aqui.

Com o tempo, passei a questionar os alunos se o motivo pelo qual a técnica da Observação Participante tornava-se atraente para eles seria o entendimento de que as respostas para as questões estariam disponíveis nas situações de vida concreta dos sujeitos envolvidos numa pesquisa, o chamado público-alvo. Pois, se assim fosse, ao ser entendida pelos alunos como uma premissa da atividade de pesquisa e confundir-se com a idéia de “pesquisa de campo” no sentido estrito da palavra, a Observação Participante possibilitaria – em princípio – “maior imersão” do pesquisador no campo e “melhores condições” de desenvolver suas questões, em comparação com o trabalho com fontes secundárias tais como prontuários, bases de dados, artigos e outros documentos contendo informação já levantada e sistematizada.

Percebi que esta técnica despertava uma especial curiosidade e mostrava-se ainda mais atrativa para profissionais da saúde, não só por não terem tido contato aprofundado com ela em seus cursos de graduação, como também por trabalharem numa área do saber que lida diretamente com pessoas, com expectativas diversas e múltiplos modos de entender e de cuidar da vida[1].

Logo, para os alunos, pode parecer lógico que o ato de participar e observar tais formas de atuação profissional e tais práticas sociais poderia trazer à tona significados supostamente ocultos ou profundos e, com isso, gerar questões que norteariam pesquisas. É possível, também, que todos estes questionamentos indiquem que, para alguns alunos, algumas técnicas possuam, por si mesmas, significados que expressem e sintetizem um tipo de estudo, com características determinadas e até mesmo rígidas, dogmáticas.

A respeito disso, por exemplo, o pensamento de que as técnicas empregadas num estudo consistem na garantia de caracterização de uma abordagem ou leitura como “qualitativo” ou “quantitativo” refere-se a uma dicotomia artificial, dado que há muitos estudos que fazem leituras que podem ser chamadas de “quali” a partir do emprego de técnicas que são chamadas de “quanti”, e vice-versa. Percebe-se ser perfeitamente possível quantificar dados que foram obtidos a partir do emprego de uma técnica como a Observação Participante, mediante categorização e o uso articulado de outras técnicas de sistematização e análise de informações, desde que esta ação seja adequada algum dos objetivos do estudo ou pesquisa.

Diante destes questionamentos e da repetida ocorrência de dúvidas e incertezas entre os alunos especificamente com respeito à Observação Participante, podemos afirmar que ela é paradoxalmente uma técnica popular, mas efetivamente pouco conhecida. Também podemos e, mais que isso, devemos compreender que, apesar de sua popularidade, existem diferentes concepções e entendimentos do que ela vem a ser e de como aplicá-la.

No sentido de contribuir para este debate, buscamos caracterizar a técnica de Observação Participante tal como classicamente definida no âmbito da Antropologia, apresentando suas características gerais e apontando potencialidades e limites de seu uso em estudos de análise de políticas de saúde, mediante o relato de uma experiência vivida no âmbito do Conselho Nacional de Saúde – CNS [2].

 

2. Observar? Participar? Ambos? Como? 

A Observação Participante foi reconhecida como técnica de pesquisa no âmbito acadêmico-científico nos primeiros anos do século XX, a partir do trabalho de campo desenvolvido entre 1914 e 1918 por Malinowski[3].

Trata-se de uma técnica de levantamento de informações que pressupõe convívio, compartilhamento de uma base comum de comunicação e intercâmbio de experiências com o(s) outro(s) primordialmente através dos sentidos humanos: olhar, falar, sentir, vivenciar… entre o pesquisador, os sujeitos observados e o contexto dinâmico de relações no qual os sujeitos vivem e que é por todos construído e re-construído a cada momento.

Efetivamente, implica em estar e observar aonde a ação acontece. E mais: não apenas estar e observar onde a ação acontece, mas ser partícipe da mesma, visando um objetivo de pesquisa. Esta foi a inovação introduzida por Malinowski e posteriormente desenvolvida pelas subsequentes gerações de antropólogos: a promoção de direta interatividade no lidar com a alteridade, ou seja, com o outro, esse espelho de nós mesmos[4].

O emprego da técnica de Observação Participante demanda do pesquisador a utilização de recursos dos mais variados. Imediatamente nos damos conta de que, como vimos, se é necessária a presença do pesquisador no campo, no momento e nas condições em que as relações se manifestam, o primeiro recurso disponível ao pesquisador no desenvolvimento de seu trabalho é o seu próprio corpo. A interatividade e interação com o meio que nos cerca somente podem ocorrer pelo uso dos nossos sentidos básicos: principalmente o tato, a audição, a visão, sem esquecer o olfato e o paladar, em menor escala, que, somados aos outros sentidos, nos permitem ter o que chamamos de percepção, gostos e sensações, tanto de base físico-orgânica quanto emocional.

Mas as sensações podem nos levar a pré-conceitos, noções pré-estabelecidas e conclusões não submetidas a uma análise cuidadosa. Para tanto, entra em cena outro dos nossos recursos básicos, sobreposto aos nossos sentidos físico-orgânicos: a capacidade de raciocinar, que transcende a aparentemente simples dicotomia razão/emoção ao ser um processo que envolve cálculos e sentimentos.

Quatro elementos relacionados à capacidade de raciocínio constituem recursos dos quais o pesquisador não pode abrir mão, em qualquer pesquisa, com ou sem o emprego da técnica de Observação Participante.

 Como dois primeiros elementos, figuram a curiosidade e a criatividade, características geralmente tão comuns nas crianças, às quais junta-se a consciência da importância de se atender a um terceiro elemento, o rigor teórico-metodológico atestador da cientificidade das ações do pesquisador. Por Rigor Metodológico pode ser entendida a adoção de um movimento do raciocínio que leve em conta o contexto da produção dos sentidos e do “estado da arte” dos conhecimentos obedecendo aos parâmetros acadêmicos, assim como a consciência de que a isenção asséptica dos olhares e juízos não existe, dada a processualidade inerente a toda e cada produção humana, “naturalmente” multifacetada – imperfeita.

Como quarto elemento, há que se garantir a observância da ética em pesquisa com seres humanos. Quanto a este importantíssimo ponto, é importante ressaltar a adequação comportamental do pesquisador aos sujeitos observados, ou seja, a necessidade do pesquisador respeitar os ethos ou códigos de condutas, dele próprio e dos sujeitos observados.

Podemos falar sobre outro elemento necessário ao pesquisador na aplicação de uma técnica como a Observação Participante: o diário de campo, que surge e se consolida como ferramenta de trabalho na qual o pesquisador registra suas observações para análise posterior. Nada impede que ele se complemente com o emprego de recursos proporcionados pela tecnologia, tais como gravadores, câmeras, notebooks, smartphones, tablets, enfim, recursos eletrônicos e informáticos cada vez mais variados, não idealizando o seu uso e sempre frisando a importância do cuidado no uso destes recursos de acordo com os ditames éticos de pesquisa com seres humanos.

Dito isto, aqui se faz necessário um pequeno recuo estratégico e falarmos um pouco sobre a disciplina acadêmica da qual a Observação Participante brota – a Antropologia, para podermos avançar posteriormente com maior segurança no debate conceitual sobre a técnica e no que diz respeito aos aspectos práticos de sua execução.

Em seus primórdios (Box 1) no século XIX, a Antropologia não defendia o compartilhamento de um contato direto dos pesquisadores com os sujeitos protagonistas das relações sociais que constituíam o objeto dos estudos. Parafraseando um conhecido ditado islâmico (Se Maomé não vai à montanha, a montanha vai a Maomé), acreditava-se que, já que o pesquisador não iria ao campo de pesquisa, este viria ao encontro do pesquisador, por intermédio dos relatos dos seus informantes.

O procedimento até então adotado de forma hegemônica, ou seja, a realização de uma compilação, comparação, contrastação e inter-relacionamento de informações e dados, descontextualizados e reclassificados de acordo com as visões muitas vezes pré-formatadas e preconceituosas, tanto dos informantes quanto do próprio pesquisador, contribuía para reforçar a concretização de uma abordagem de caráter distanciado da realidade dos sujeitos envolvidos.

Sabendo deste histórico, defendemos a idéia de que a entrada do pesquisador nesta realidade, portanto, não pode ocorrer de forma solta, espontânea e despreocupada. Ninguém é uma página em branco na qual as “verdades” da realidade serão gravadas pela simples observação do que ocorre num determinado espaço, num determinado tempo, de determinados modos.

Assim, o emprego da Observação Participante demanda o uso de um roteiro, contendo questionamentos baseados no investimento teórico prévio que se faz antes de se ir a campo, a serem desenvolvidos pelo pesquisador com a observação. Isto é fundamental para a aplicação da técnica. Isto equivale a dizer que se faz necessário ao pesquisador realizar um “mapeamento do campo”, uma prévia tomada de contato com a realidade dos sujeitos.

Tal ‘”mapeamento” ocorre por via teórica, refletindo e analisando trabalhos de outros pesquisadores em situações similares. E também ocorre por via prática, ao colocar em ação o artifício citado pelo antropólogo Roberto DaMatta de estranhamento do familiar e da familiarização do exótico[5], assim como ao obter junto aos sujeitos envolvidos e às autoridades responsáveis pelo lugar onde a técnica será aplicada, a autorização para aplicá-la.

Justamente no aspecto do distanciamento/aproximação com a realidade dos sujeitos – e aqui compreendendo-se o próprio pesquisador como um sujeito – é que as contribuições de Malinowski possibilitaram o desenvolvimento de uma noção de Observação Participante como experiência de vivenciamento de tensões entre todos os envolvidos, o que pressupõe a conexão com sujeitos mais ou menos propensos, dispostos ou adequados aos propósitos do pesquisador.

Aqui temos agindo de forma vívida e pulsante a polissemia das relações humanas, ou seja, a sua multiplicidade de sentidos atuando em seu potencial manifesto e dando o tom da pesquisa numa perspectiva de intersubjetividade focada, da relação do pesquisador com os elementos que o circundam, que formam as relações observadas e o informam sobre elas. E dentre estes elementos, destacam-se os informantes-chave.

A bibliografia de Antropologia nos fornece inúmeros exemplos[6] de situações nas quais o trabalho do pesquisador simplesmente não poderia ter sido executado ou teria ficado bastante comprometido se não tivessem sido estabelecidas relações com sujeitos pertencentes ao universo e ao campo de pesquisa, detentores de alguns atributos qualificados em relação aos outros sujeitos.

Na relação intersubjetiva que se estabelece entre o pesquisador e os sujeitos da pesquisa, o informante-chave é aquele que pode “abrir portas”, no sentido de facultar, facilitar, proporcionar ou oferecer ao pesquisador informações e/ou condições especiais para o desenvolvimento das suas observações.

Os atributos dos informantes-chave, sejam eles na ordem de status sócio-cultural, do respeito historicamente construído, do poder político-ideológico, do poder econômico-financeiro, das habilidades cognitivas, da ocupação de posições ou cargos estratégicos, etc., identificados pelo pesquisador, potencializam o seu trabalho de pesquisa ao possibilitarem o processo de “quebra do gelo” inicial comumente experimentado pelo pesquisador em sua entrada no campo; a inserção em determinados espaços/lugares; a obtenção de informações consideradas qualificadas referentes a temas no âmbito do objeto de pesquisa com o qual o pesquisador se propôs lidar[7].

Entretanto, nem tudo são flores no campo de trabalho do pesquisador que se propõe aplicar a Observação Participante. Se afirmamos anteriormente que o informante-chave pode abrir portas, ele também pode fechar algumas delas, quiçá inviabilizar totalmente uma pesquisa. Pois se a natureza relacional da empatia estabelecida entre o pesquisador e informante-chave por algum motivo desanda e descamba para uma direção desagradável, o trabalho de pesquisa pode ficar “queimado”[8].

Daí ser necessário todo o cuidado por parte do pesquisador acerca das fragilidades que nos caracterizam como humanos, que caracterizam o seu trabalho e que podem se fazer presentes numa relação tão delicada quanto as que se estabelecem com os semelhantes numa situação de pesquisa, mesmo sabendo que nem todo o cuidado previne com absoluta segurança a ocorrência de imprevistos indesejáveis.

 

2.1 Utilizando a Observação/Participação no CNS

A tomada de contato com atores e arenas nas quais se formulam e são tomadas decisões envolvendo políticas públicas representa uma empreitada desafiadora, por conta das nuances ideológicas e escolhas estratégicas que perpassam todos os processos – seja o de pesquisa, seja o inerente à elaboração das políticas. O nível dos desafios aumenta ainda mais ao se pensar sobre as potencialidades e limites do uso da técnica de Observação Participante em estudos de análise de políticas de saúde.

Na busca por ilustrar estes desafios, passamos agora a tecer algumas considerações sobre uma experiência de pesquisa vivida no âmbito do Conselho Nacional de Saúde – CNS, na qual foi empregue a Observação Participante.

Em 2007, foi demandada a uma equipe de pesquisadores da Escola Nacional de Saúde Pública Sergio Arouca, da Fundação Oswaldo Cruz (ENSP/FIOCRUZ) a realização de um estudo [9] junto ao CNS, com o propósito de subsidiar as discussões realizadas no Observatório de Conjuntura de Política de Saúde da ENSP[10], ao trazer relatos, reflexões e análises mensais sobre o trabalho desenvolvido pelo conselho. Para atingir este objetivo, optou-se pelo emprego da técnica de Observação Participante, visto que se adequaria à natureza das informações que se desejavam levantar e ao objetivo proposto.

A fim de atender à sua missão de atuar na deliberação, fiscalização, acompanhamento e monitoramento das políticas públicas de saúde, o CNS realiza reuniões ordinárias, nas quais os conselheiros[11] discutem temas de pauta ligados a questões envolvendo a saúde. Estas reuniões são abertas à participação da população, sendo, inclusive, transmitidas em tempo real na Internet via página do Ministério da Saúde[12].

Os pesquisadores procuravam identificar a dinâmica das relações estabelecidas entre os conselheiros nas reuniões ordinárias do CNS, para que pudessem compreender as formas pelas quais o exercício da participação e do controle social se dava naquela arena contemplando temas mais candentes e, assim, discutir no Observatório a conjuntura da saúde. Por esta razão, o recurso do acompanhamento das reuniões via Internet não foi privilegiado, tendo sido utilizado apenas de forma suplementar em uma ocasião em que ocorreram impedimentos burocráticos de deslocamento da equipe de pesquisadores da cidade do Rio de Janeiro à Brasília.

A pesquisa tinha como demandante a Secretaria de Gestão Estratégica e Participativa do Ministério da Saúde (SGEP/MS), enquanto que o CNS também constituía um órgão vinculado ao Ministério. Portanto, logo de início, antes dos pesquisadores partirem para a atividade de campo propriamente dita, uma série de questões mereceu atenção cuidadosa:

Que tipo de possíveis aproximações e afastamentos poderiam estar em jogo nesta relação, dado que há conselheiros representantes da SGEP? Que possíveis influxos político-partidários e ideológicos estariam em ação no sentido da relação entre as instituições e quais seriam as consequências na e para a realização das atividades do CNS? Assim, como explorado anteriormente neste texto, um “mapeamento” se fez necessário, para que a compreensão dos pesquisadores sobre estas questões não ficasse comprometida ou nublada por pré-noções.

Outra preocupação dizia respeito às condições de contato dos pesquisadores com os conselheiros. Seria possível, como de fato foi, identificar posicionamentos gerais das entidades expressas por seus representantes no CNS acerca da formulação e execução de políticas e aprofundar esta identificação com a prática da observação? Haveria possibilidade de estabelecer contato com os conselheiros de modo que prestassem informações fora das reuniões ordinárias?

Um interessante desafio para os pesquisadores foi efetivamente a “participação” nas reuniões. Conforme a legislação, todo cidadão brasileiro tecnicamente é usuário do SUS, o que os incluía nessa categoria. Também pelas legislações e normatizações referentes à estrutura e funcionamento do CNS, estava assegurado o direito de presença de qualquer cidadão nas reuniões, o que, por um lado, facilitou sobremaneira o trabalho da equipe de pesquisa.

Por outro lado, esta situação quase se tornou um obstáculo para os pesquisadores, dado que alguns dos temas debatidos e deliberados pelo CNS os interessavam diretamente, por relacionarem-se com objetos de outras pesquisas as quais estavam envolvidos. Esta situação de desvio de atenção, nem um pouco rara na atividade de observação, oferecia certo grau de risco de comprometimento do trabalho, por conta do envolvimento dos pesquisadores com estes temas. Conforme citado anteriormente, o rigor teórico-metodológico foi fundamental para evitar que as atenções se desviassem dos objetivos da atividade.

Muito embora seja importante dizer que os contatos efetuados por pesquisadores com conselheiros que trabalhavam por temas que os interessavam em suas aspirações e pesquisas individuais tivessem potencial para ser bastante produtivos e prolíficos, sempre se atendeu ao preceito ético de não estabelecer durante a pesquisa relações que pudessem se transformar em obstáculos ou influências nas observações realizadas no âmbito da pesquisa que levou os pesquisadores ao CNS.

O emprego da técnica desenvolveu-se a partir do estabelecimento inicial de contatos com os conselheiros e membros da equipe técnico-administrativa do CNS, de modo a providenciar a entrada no campo, e na posterior interação, durante as reuniões, com eles e com participantes não integrantes da estrutura formal do Conselho, mas que poderiam enriquecer as observações sobre a dinâmica e a operacionalização das relações dos conselheiros.

Lançou-se mão de instrumentos de pesquisa (roteiros) aplicados aos atores/sujeitos envolvidos, de modo a explorar questões pontuais, não apenas específicas como também mais abrangentes, sempre afeitas à articulação teórico-conceitual embasadora da pesquisa e com o cuidado de buscar contemplar os objetivos geral e específicos propostos.

Como atividade complementar às observações e apontamentos registrados em diário de campo e gravações, foram cotejadas fontes secundárias, materializadas no conjunto de atas, deliberações, resoluções e moções referentes às reuniões envolvendo o tema da relação dos conselheiros entre si e do CNS com o Ministério da Saúde no que tangia à missão do Conselho.

Talvez um bom exemplo de questão posta em evidência no CNS e que pôde ser melhor trabalhada e compreendida porque observadores tiveram a oportunidade de se aproximar do cenário e dos atores e de construir um olhar diferente de quem acompanha a distância ou por intermédio de documentos editados foi o acirrado debate sobre a proposta de reestruturação da atenção à saúde indígena.

O Projeto de Lei n. 3.958/08 dispunha sobre a criação de uma nova secretaria no Ministério da Saúde, no âmbito da atenção primária e atenção básica, para dar conta da especificidade da atenção à saúde daquele contingente populacional. Grupos majoritários de conselheiros posicionaram-se contra esta proposta, interpretando-a como uma manobra política de esvaziamento da Fundação Nacional de Saúde – FUNASA[13], responsável pela atenção à saúde indígena.

Em paralelo e concomitante a este debate, ao longo de vários meses do ano de 2008, o então Ministro José Gomes Temporão enfrentava forte oposição quanto à sua permanência no cargo. O fato do Ministro não ter instituído uma frequência de comparecimento às sessões ordinárias e a sua postura interpretada pela maioria dos conselheiros como desconsideração em relação às deliberações e resoluções do CNS acentuou a tensão.

A reunião ordinária do CNS efetuada nos dias 12 e 13 de novembro de 2008 foi marcada pela presença o Ministro Temporão e de 34 presidentes de conselhos indígenas no plenário, manifestando-se contra o Projeto de Lei n. 3.958/08. Esta reunião consistiu, para os pesquisadores, numa efeméride da pesquisa, dado que condensou e expôs os conflitos entre o CNS e o Ministério da Saúde, mais especificamente com a figura do então Ministro da Saúde, tomando como pano de fundo o debate envolvendo a atenção à saúde indígena, as funções da FUNASA e o Projeto de Lei Lei n. 3.958/08.

A utilização da técnica de Observação Participante possibilitou responder às questões previamente formuladas sobre este tensionamento histórico e que já vinha sendo corroborado pelo acompanhamento das reuniões do CNS e também das questões mais finas que surgiram ao longo do processo do trabalho de campo sobre a relação interinstitucional. Logo, a riqueza do acompanhamento dos animados debates referentes a estas questões, possibilitado pelo emprego da técnica, foi inestimável naqueles dois dias de verão de 2008. O mapeamento e a compreensão das forças e interesses em jogo teria sido muito mais dificultoso caso os pesquisadores não tivessem utilizado a Observação Participante.

Assim, a vivída experiência de acompanhamento e observação in loco das sessões ordinárias do CNS proporcionou à equipe de pesquisadores uma excelente oportunidade de experimentar o vivenciar de tensões apontado na literatura antropológica. Este vivenciamento, tomado como dimensão prática de uma atividade investigativa, não é compreendido como dissociado de uma dimensão teórica.

Na verdade, com a aplicação de uma técnica de levantamento de informações e, em especial, a Observação Participante, institui-se e desenvolve-se uma ação reflexiva (que também poderia se traduzir numa reflexão ativa) que subsidia a pesquisa proposta, fundamentando-a em direção ao atingimento dos objetivos colocados.

E aqui retornamos às questões iniciais deste texto que, se por um lado, fecha o ciclo de raciocínio aqui proposto, aponta para a renovação destas mesmas questões, posto que fazem parte da própria essência do pensamento científico, indagador e pleno de incompletudes e incertezas – ou, pelo menos, de certezas efêmeras.


 

 ]

 

 

 

 

 

 

 

Em dúvida como citar este texto? Utilize a referência abaixo

FERNANDES, F. M. B.  Considerações Metodológicas sobre a Técnica da Observação Participante . In MATTOS, R. A.; BAPTISTA, T. W. F. Caminhos para análise das políticas de saúde, 2011. p.  262-274. Online: disponível em www.ims.uerj.br/pesquisa/ccaps.

Você pode baixar a versão em pdf clicando no link abaixo. Na versão em pdf as páginas do texto estão numeradas. Ela também inclui todos os box vinculados a este capítulo. Para citar trechos deste texto, utilize a numeração desta versão em pdf.

Capitulo 11 Considerações metodológicas sobre a técnica da observação participante (pdf)]

Notas de Rodapé    (? returns to text)
  1. Nesse sentido, talvez seja interessante resgatar a idéia de conceito ampliado de saúde para entender as implicações de nossos estudos. Conceito Ampliado de Saúde: Compreende-se por Saúde a resultante das condições de alimentação, habitação, renda, educação, trabalho, meio ambiente, emprego, lazer, liberdade, acesso e posse da terra e acesso a serviços de saúde. Relatório Final da VIII Conferência Nacional de Saúde (1986), art. 196 da CFB/88 e art. 3º da Lei 8.080/90.?
  2. O Conselho Nacional de Saúde (CNS) instância máxima de deliberação do Sistema Único de Saúde – SUS – de caráter permanente e deliberativo, tem como missão a deliberação, fiscalização, acompanhamento e monitoramento das políticas públicas de saúde. O CNS é um órgão vinculado ao Ministério da Saúde composto por representantes de entidades e movimentos representativos de usuários, entidades representativas de trabalhadores da área da saúde, governo e prestadores de serviços de saúde, sendo o seu Presidente eleito entre os membros do Conselho. Site do CNS disponível na internet em < http://conselho.saude.gov.br/apresentacao/apresentacao.htm>?
  3. Bronislaw Kasper Malinowski era polonês radicado na Inglaterra, e desenvolveu um estudo junto aos nativos do arquipélago Trobriand, situado na Melanésia, região ocidental do Oceano Pacífico. Uma premissa defendida por Malinowski era a necessidade de se apreender a linguagem dos nativos, no intuito de efetivamente concretizar a comunicação com eles.?
  4. Parece óbvio – e é mesmo, o que não torna o fato menos relevante ou importante – mas ninguém além de cada um de nós vivencia a exata individualidade que cada um de nós mesmos possuímos. Entretanto, há elementos de variadas ordens (culturais, sociais, existenciais…) que nos colocam a todos num mesmo patamar de humanidade e sociabilidade, e que nos permitem buscar identificação, se não total, pelo menos por aproximação, comparação e diferenciação. É esse o desafio que temos à nossa frente, o tempo inteiro, na relação com os outros.?
  5. DA MATTA, R. Ofício do Etnólogo ou como ter Anthropological Blues. In: NUNES, E. (org). A aventura sociológica. RJ: Zahar, 1978.?
  6. Aqui estão apenas alguns exemplos selecionados: FOOTE WHYTE, William. Sociedade da Esquina. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Editora, 2005. GEERTZ, Clifford. Um Jogo Absorvente: Notas sobre a Briga de Galos Balinesa. In A Interpretação das Culturas. Rio de Janeiro: Editora LTC, 1989. MALINOWSKI, Bronislaw. Os Argonautas do Pacífico Ocidental. São Paulo: Editora Abril, 1978. Coleção Os Pensadores. OLIVEIRA, Roberto Cardoso. Os Diários e suas Margens: Viagem aos Territórios Terêna e Tukuna. Brasília: Editora UnB, 2000. SOARES, Luiz Eduardo. BILL, M.V. & ATHAYDE, Celso. Cabeça de Porco – Capítulo IV: Invisibilidade e Reconhecimento. Rio de Janeiro: Editora Objetiva, 2005. VELHO, Gilberto. O Antropólogo pesquisando em sua Cidade: sobre Conhecimento e Heresia. Cap. 1. In: O Desafio da Cidade – Novas Perspectivas da Antropologia Brasileira. Rio de Janeiro: Campus, 1980. WACQUANT, Löic. Corpo e Alma: Notas Etnográficas de um Aprendiz de Boxe. Rio de Janeiro: Relume Dumará, 2002. ZALUAR, Alba. O Antropólogo e os Pobres: Introdução Metodológica e Afetiva. In: Zaluar, A. A Máquina e a Revolta – As Organizações Populares e o Significado da Pobreza. Editora Brasiliense: São Paulo, 1985.?
  7. Há que se frisar que o pesquisador pode, dependendo da quantidade e das características dos sujeitos que compõem o universo de sua pesquisa, lançar mão de informações advindas de mais de um informante-chave. Ou seja, o pesquisador pode tecer uma rede de informantes-chave de modo a articular as informações e, com isto, potencializar as suas análises.?
  8. Um aspecto adicional (que aliás, serve não somente para os informantes-chave, como também para todo e qualquer sujeito de pesquisa) é o que Pierre Bourdieu chama de duplo efeito da auto-análise assistida: a instrumentalização (consciente ou não) do lugar de expressão do informante-chave como posição de testemunha, suposta e automaticamente crível, naturalmente confiável e forçosamente dotada de credibilidade. Isto seria, em outras palavras, a concretização de uma situação de “captura” ou de influência do pesquisador pelo sujeito da pesquisa, situação esta que, em se tratando de análise de políticas, assume importância redobrada. É um risco que o pesquisador corre, presente, inclusive, durante a aplicação de outras técnicas, de estabelecer um tipo de relacionamento com seu informante-chave de tal modo que este passa a ser um tipo de co-autor com uma agenda e interesses próprios que, muito embora possam ser legítimos, podem comprometer o seguimento e a consecução dos propósitos da pesquisa, ancorados que são – ou, pelo menos, que deveriam ser – no arcabouço teórico-conceitual que o pesquisador constrói. A este respeito, ver o filme “Frost/Nixon” – 2008, sobre uma entrevista concedida em 1977 pelo ex-presidente norte-americano Richard Nixon ao apresentador britânico David Frost. O link para um trecho da entrevista original é: http://www.dailymotion.com/video/x1t2uf_richard-nixon-interviewed-by-david_news?
  9. O estudo inseriu-se na pesquisa ‘Monitoramento e Apoio à Gestão Participativa do SUS’, desenvolvida pelos Departamentos de Ciências Sociais e de Administração e Planejamento da Escola Nacional de Saúde Pública Sergio Arouca (DCS/DAPS/ENSP/FIOCRUZ) com o apoio da Secretaria de Gestão Estratégica e Participativa do Ministério da Saúde (SGEP/MS). Esta pesquisa trabalhava com as temáticas do controle e da participação social no âmbito dos Conselhos de Saúde.?
  10. O Observatório de Conjuntura da Política de Saúde, sediado na Escola Nacional de Saúde Pública da Fundação Oswaldo Cruz e Coordenado pelo Núcleo de Estudos Político-Sociais em Saúde (Nupes), é um espaço institucional para onde convergem conhecimentos e a partir do qual busca-se compreender os acontecimentos da política nacional de saúde. Para isto é feito um acompanhamento sistemático de diversos atores e da dinâmica das arenas setoriais. As arenas a serem acompanhadas pelo Observatório são o Conselho Nacional de Saúde (CNS), a Comissão Intergestores Tripartite (CIT) e o Legislativo Federal (comissões e Frente Parlamentar de Saúde). Dentre os atores em análise encontram-se o Ministério da Saúde e o Movimento Médico. O endereço eletrônico do Observatório de Conjuntura está acessível na Internet em: http://www4.ensp.fiocruz.br/conjuntura/, embora uma reformulação da iniciativa esteja em curso por parte da Vice-Direção de Cooperação e Escola de Governo da ENSP/FIOCRUZ.?
  11. O CNS possui atualmente 48 conselheiros titulares, cada qual com 2 suplentes, e representam entidades enquadradas em duas grandes categorias: 1) representantes de entidades e movimentos sociais de usuários do SUS, e 2) representantes da gestão governamental,  de entidades de profissionais de saúde, da comunidade científica e de entidades empresariais da área, e de entidades de prestadores de serviços de saúde.?
  12. O endereço eletrônico do Portal da Saúde, mantido pelo Ministério da Saúde, é o seguinte: http://portal.saude.gov.br/portal/saude/area.cfm?id_area=399 .?
  13. A Fundação Nacional de Saúde (Funasa), órgão executivo do Ministério da Saúde, é uma das instituições do Governo Federal responsável em promover a inclusão social por meio de ações de saneamento para prevenção e controle de doenças. É também a instituição responsável por formular e implementar ações de promoção e proteção à saúde relacionadas com as ações estabelecidas pelo Subsistema Nacional de Vigilância em Saúde Ambiental. O endereço eletrônico da FUNASA é: http://www.funasa.gov.br/internet/competencias.asp. Sobre as funções da FNASA em relação à atenção à saúde indígena, em consonância com o Art. 6º do Decreto Nº 7.336, de 19 de Outubro de 2010, alterado pelo Decreto Nº 7.461, de 18 de Abril de 2011, o Ministério da Saúde e a Fundação Nacional de Saúde (Funasa) deverão efetivar a transição da gestão do Subsistema de Atenção à Saúde Indígena para o Ministério da Saúde até o dia 31 de dezembro de 2011.?

Sobre Felipe Cavalcanti