quarta-feira, abril 17, 2024
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Nota técnica: Uma análise dos óbitos ocorridos nos domicílios do estado do Rio de Janeiro

Autora: Nayara Lopes Gomes – Doutoranda em epidemiologia no Instituto de Medicina Social da Universidade do Estado do Rio de Janeiro

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Metodologia

Os dados dos óbitos apresentados nessa nota técnica foram obtidos por meio do tabulador da Secretaria de Saúde do governo do estado do Rio de Janeiro (TABNET). A fonte dos dados é o Sistema de Informações sobre Mortalidade – SIM. A consulta foi realizada no dia 08/07/2020. Para o total da população foram utilizadas as estimativas de população do IBGE referentes ao dia primeiro de julho de 2019 em nível municipal.

Para a avaliação da série histórica foram considerados os óbitos desde o primeiro ano disponível no tabulador (1996). Para efeitos de avaliação do impacto da pandemia no total de óbitos em domicílios, e dos óbitos como um todo, ocorridos nos anos de 2019 e 2020 foram considerados apenas os meses de março a maio por acreditar que os dados de junho ainda possam estar muito desatualizados para alguns municípios. Optou-se por considerar o mês de março como o mês de início do período analisado por ser o mês em que já foi verificado um aumento de óbitos em domicílios em algumas cidades, além de ser quando foi dado início a algumas medidas restritivas no estado.

Tendo em vista o objetivo de explorar os óbitos ocorrido nos domicílios, os resultados apresentados se referem aos municípios de residência dos falecidos e não aos municípios de ocorrência do óbito.

Resultados

O atual cenário de explosão no número de óbitos que vem ocorrendo nos últimos meses (Gráfico 1) em função da pandemia de COVID-19 tem sido motivo de extrema preocupação para a saúde pública do estado do Rio de Janeiro e do mundo como um todo. Junto a isso, vem sendo notado o aumento também de óbitos ocorridos nos domicílios sem que o indivíduo tivesse ao menos tido a oportunidade de receber a assistência médica necessária (Gráfico 2).

Com relação aos efeitos da pandemia no ano de 2020, observa-se um salto no total de óbitos registrados nos meses de abril e maio (Gráfico 3). No mês de maio foram registrados aproximadamente 18 mil óbitos de residentes do estado do Rio de Janeiro.

Tendo como base a evolução mensal do número de óbitos ocorridos dentro dos domicílios no estado do Rio, percebe-se um expressivo crescimento na quantidade desses óbitos a partir do mês de março de 2020 (Gráfico 4). No ano de 2019 a média mensal no período de março a maio foi de 1.629 óbitos ocorridos no domicílio enquanto em 2020, nesse mesmo período, a média chegou a 2.293. No mês de maio verifica-se o máximo de registros de óbitos ocorridos em domicílios desde o ano de 1996 (Gráfico 2). Foram mais de 2.700 óbitos apenas nesse mês. O crescimento percentual de óbitos nos domicílios ocorridos entre março e maio de 2020 em relação ao mesmo período de 2019 (40,8%) foi quase o dobro do crescimento observado entre os óbitos como um todo nesses mesmos períodos (22,7%). Quando comparamos os meses mais críticos (abril e maio) de 2020 em relação a 2019, esses percentuais sobem para 48,9% e 30,9%, respectivamente.

O município de Duque de Caxias, por exemplo, apresentou um aumento de 8,6% nos óbitos totais registrados de março a maio de 2020 em relação ao mesmo período em 2019. Por outro lado, viu o número de óbitos ocorridos em casa aumentar em 139%. De março a maio de

2019 foram registrados 79 óbitos em domicílios, enquanto no ano de 2020 foram 189 neste mesmo período no município.

Os municípios de Niterói, Petrópolis, Rio de Janeiro, São Gonçalo e São João de Meriti apresentaram situação semelhante. O número de óbitos em domicílios nesses municípios passou de 100 no acumulado dos meses de março a maio de 2020 e tiveram um crescimento, em relação ao registrado em 2019, maior que o observado entre os óbitos como um todo (Tabela 1). O município do Rio de Janeiro, por exemplo, chegou a 5,4 óbitos/10.000 habitantes no período de março a maio de 2020 frente a 3,4 nesse mesmo período em 2019.

Os municípios de Belford Roxo, Campos dos Goytacazes e Nova Iguaçu também chegaram a registrar uma elevada quantidade de óbitos em domicílios no período analisado de 2020, chegando a 103, 155 e 260 óbitos respectivamente. No entanto, ao comparar esses totais com os registrados no mesmo período para o ano de 2019 verifica-se uma redução desses óbitos em 10,4% e 4,9% respectivamente para os municípios de Belford Roxo e Campos dos Goytacazes. No caso do município de Nova Iguaçu houve um aumento nos óbitos ocorridos nos domicílios de 6,6% em 2020 quando comparado com 2019 no período analisado. No entanto, esse aumento foi menor que o verificado entre os óbitos como um todo (20,2%). Vale ressaltar que os dados dos últimos meses ainda podem estar defasados. Principalmente no município de Duque de Caxias aparentemente os óbitos do mês de maio ainda não estão em sua maioria registrados no sistema. Isso também parece ocorrer em alguns outros municípios.

Ao analisar o perfil das pessoas que faleceram dentro dos seus domicílios (Figura 1), é possível verificar que o aumento no número de óbitos em casa em 2020 frente a 2019 (março a maio) foi semelhante entre homens e mulheres e maior para negros (em comparação a brancos e pardos) e com idade mais avançada (em comparação com as pessoas de idade mais nova). O fato de ser mais velho poderia ser explicada pela epidemia ser mais letal nesses grupos populacionais. No entanto, os resultados em relação a cor/raça podem estar relacionados com uma maior falta de acesso a saúde dessa população.

No que se refere as causas dos óbitos ocorridos nos domicílios, é possível perceber um expressivo aumento (324%%) de mortes por causas de doenças infecciosas e parasitárias, o que inclui a COVID-19 (Gráfico 5). No período de março a maio de 2019 foram registrados 54 óbitos dentro de domicílios por essas causas enquanto em 2020 chegou a 229 chegando a praticamente quadruplicar. Quando observamos esse crescimento para os óbitos como um todo, o mesmo chega a 423% no mesmo período (2.186 em 2019 e 11.426 em 2020).

O que chama atenção é o aumento considerável de óbitos ocorridos dentro dos domicílios também por outras causas, especialmente de óbitos cujas causas eram sinais e achados anormais de exames clínicos e de laboratório, não classificados em outra parte. Acredita-se que muitos desses óbitos poderiam ser de COVID sem diagnóstico que acabaram sendo classificados como causas mal definidas e não especificadas. Para esse grupo houve quase uma duplicação dos óbitos entre os períodos analisado. Saindo de 839 óbitos de março a maio de 2019 para 1.607 no mesmo período em 2020 (92% de aumento). Considerando apenas as outras causas mal definidas e as não especificadas de mortalidade esse aumento foi de 749 óbitos nos domicílios em 2019 para 1.408 em 2020.

Além disso, verifica-se ainda um aumento considerável de óbitos nos domicílios no ano de 2020, quando comparados a 2019 no período analisado, também por causas como doenças do sistema osteomuscular e tecido conjuntivo (69%), neoplasmas (60%), doenças endócrinas, nutricionais e metabólicas (53%) e doenças do sistema nervoso (48%). No caso do aumento de óbitos por doenças crônicas como a diabetes, acredita-se que pode ser devido a um menor acompanhamento médico das pessoas com essas doenças que possivelmente já existiam antes do início da pandemia, ou ainda que poderiam ser de COVID como causa associada, ainda que não registrada. Vale ressaltar ainda que todas as causas mencionadas acima apresentaram aumento entre dos óbitos ocorridos em domicílios entre 2019 e 2020 no período analisado bem superior ao crescimento observado para os óbitos como um todo entre esses mesmos anos.

No caso dos óbitos em domicílios ocorridos por doenças endócrinas, nutricionais e metabólicas, grande parte do aumento se concentra por motivos de diabetes. Por essa causa houve um aumento de 59% nos óbitos nos domicílios entre 2019 e 2020 para o período analisado. Já entre os óbitos por doenças do sistema nervoso há uma concentração do aumento em doenças de Alzheimer que apresentaram um crescimento de 64% entre os anos no período analisado. Percebe-se também para as causas de sintomas, sinais e achados anormais de exames clínicos e de laboratório, não classificados em outra parte uma concentração do aumento em:

outros sintomas e sinais relativos aos aparelhos circulatório e respiratório, senilidade, outras mortes súbitas de causa desconhecida e outras causas mal definidas e as não especificadas.

Considerações finais e limitações

A presente análise foi realizada com base nos dados disponibilizados no SIM até o dia 8 de julho de 2020. Vale ressaltar que, principalmente em alguns municípios, há uma demora na inclusão dos registros no sistema. Sendo assim, os óbitos de maio, por exemplo, podem ainda estar abaixo do que o ocorrido de fato. Seria interessante uma atualização desses dados mais à frente.

Por fim, as variações percentuais devem ser interpretadas com cuidados pois em alguns casos um número absoluto baixo pode gerar uma variação considerável com o aumento de 1 ou 2 óbitos por exemplo. Por esse motivo alguns resultados não foram incluídos nesse relatório ainda que apresentasse variações aparentemente altas.

Referências Bibliográficas

Secretaria de Saúde do Governo do Estado do Rio de Janeiro. Dados SUS. Estatísticas vitais de óbitos e nascimentos.  Disponível em <http://sistemas.saude.rj.gov.br/tabnet/deftohtm.exe?sim/obito.def >. Acesso em 08 de Julho de 2020.

Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE). Estimativas da população. Disponível em <https://www.ibge.gov.br/estatisticas/sociais/populacao/9103-estimativas-de-populacao.html?=&t=resultados>. Acesso em Julho de 2020.