sexta-feira, abril 19, 2024
Página Grená

SUStentando vidas – Profissionais em formação sendo sujeitos da história

Nilcéia Nascimento de Figueiredo (IMSHC/UERJ) e Valéria Ferreira Romano (CCS/UFRJ)

A tríade do ensino público universitário que prevê pesquisa, ensino e extensão, com o propósito indissociável de construção da educação superior brasileira, ainda necessita de muitas reflexões e práticas “pluripedagógicas” para se tornar um território sem fronteiras. Tomando a premissa larrossiana sobre uma proposição mais existencial e mais estética de uma educação que emerge da experiência/sentido (BONDÍA, 2002), um novo mundo se desenha planificado diante dos nossos olhos e ouvidos. De fato, submergir em um “estado de enfermidade difusa causada por uma virose inespecífica e de difícil diagnóstico: fragmentação produzida por áreas de saberes não comunicantes” (ALMEIDA, 2019) nos faz entrar em contato com um mundo que tem pressa em se refazer. Encontramo-nos na premência de que o tempo não sabe esperar e, parafraseando Vandré, que esperar não é saber, apostamos numa circularidade que nos faz estar e ser sujeitos de novos modos de aprender e ensinar, aprendendo.

Foi o próprio tempo “sindêmico”, portanto, que nos convidou a aprofundar, pela pedagogia da experiência, uma pedagogia profana como caminhos de fazer, de um aprender, de um ensinar através da ação, ou antes da transgressão ou, melhor ainda, da liberdade e da autonomia (BONDÍA, 2016; HOOKS, 2017; FREIRE, 2000). O desafio, assim, tem sido aprender as novas éticas de uma relação agora mediada por uma tela. De que tempo dispomos para não ser demais e/ou tão pouco? Quais são as orientações para aquelas/es que não abrem suas câmeras, quer por instabilidade no “sinal”, ou mesmo falta de vontade de aparecer?

Das angústias das/os estudantes das graduações de saúde, que preferimos chamar de profissionais em formação, as mais prevalentes são a suspensão do tempo além de “o não poder fazer nada” mediante tanto sofrimento e mortes, e o desejo de “fortalecer o SUS”. Se, por um lado, o afastamento físico desmobilizou ações que ainda circulam à margem dos núcleos curriculares, em franco esquecimento, como a orientação da formação médica voltada para o SUS e a seu fortalecimento, a utilização de uma rede social, na vigência das medidas de isolamento, oportunizou a realização de ações de extensão, iniciando uma construção de pontes interativas, cujas interligações contribuem para o fortalecimento do vínculo e da comunicação que facilita a continuidade do cuidado (RAIMONDI et al., 2020; FELISBERTO et al., 2020).

Se não inauguramos, cumprimos a tendência de revitalizar a linguagem radiofônica junto à geração podcasting. No início de 2021, o Correio Brasiliense relatou o grande crescimento de conteúdos narrados, como produto do período de distanciamento físico imposto pela pandemia de Covid-19 (BARBIRATO, 2021). Em 2007, Herschmann dizia que os podcasts, uma incorporação cultural advinda das indústrias da música e do rádio, não eram só parte de uma forma de interação sensorial experimental nova, mas fariam alusão à apropriação de novas tecnologias por atores sociais (Kischinhevsky; Herschmann, 2007). Nesse sentido, a incorporação dessa linguagem como resposta aos novos modos de aprender, ensinar e pactuar com os estudantes ávidos por tornar seus saberes acessíveis à população, os coloca como protagonistas de sua própria formação. Em tempo quase real, elas/es trazem os conteúdos que circulam no programete, denominação dada a um programa de curta duração, no limite de cinco minutos, que vai ao ar duas vezes na semana na rádio UFRJ, bem como na plataforma Spotify ou ainda em rádios comunitárias – como foram os episódios feitos para apoiar a difusão de conhecimento sobre a Covid-19 durante a grave crise do Amazonas.

O SUStentando a vida se produz como um “ente” de nossos afetos, entrelaçado por temas que circulam nesse tempo por teias às vezes muito desajustadas, mobilizando discursos sobre a saúde, o SUS, a Atenção Primária à Saúde, entrecruzados no direito à vida. São cinco minutos em que lapidamos o que dizer e a forma de se dizer… E, quando o tempo se mostra curto, desdobramos em mais episódios, como por exemplo, a série sobre violência infantil veiculada, para além da usual Rádio UFRJ, na Rádio MEC AM em junho de 2021.

Assim, como ilustração, reproduzimos aqui alguns temas construídos até o momento pelo grupo e já colocados no ar: “Não acredite no Kit Covid”; “Com que máscara que eu vou”; “População em situação de rua”; “Aglomeração!”; “Homem trans e transfobia”; “Covid e o isolamento respiratório domiciliar”; “Por que devo manter medidas de prevenção mesmo depois de vacinado contra a Covid-19?”; “Covid-19 e a descontaminação de alimentos e produtos que chegam da rua”; “Covid: máscara para quê?”; “Os sintomas da Covid-19”; “Vacina contra a Covid-19”; “Eu e meu corpo como ele é…”; “Agentes Comunitárias de Saúde”; “Covid na favela”; “Racismo”; “Violência Obstétrica”; “Lei Maria da Penha”; “Medicalização da vida”; “Cultura do estupro”; “Fake news e saúde”; “Financiamento do SUS”; “Como está sua alimentação?”; “Homem também precisa cuidar da saúde”; “Saúde da Família”; “Saúde do Homem”; “Saúde da Mulher”; “O SUS como um direito de todos nós”.

É sobre vida, é sobre não só estar, mas ser sujeito da História, protagonizá-la, como tematiza a poesia de Ana Beatriz, estudante de Psicologia da UFRJ, em maio de 2021:

Sustentando a vida
O SUS sustenta
Promove e estende
Laça e relaça

A vida
A garante
A expande
A contém

O que sustenta a vida
Nessa vida que pouco se sustenta

Às vezes meu trabalho não dá nem pro sustento, mas o que me sustenta é meu cafezinho da tarde com a minha agente comunitária preferida, foi ela que me orientou a falar para o meu irmão sobre o programa antitabagismo, traz meu remédio e me ajuda nesse corre que é a vida.

Por vezes fico pensando o que seria meu SUS. Se esse governo desgovernado governasse para gente

E gente
Gente
Gente
Muitaaaaa gente

Aos que se foram muito luto e muito lamento e aos que ficaram?
Muita lutaaa, por que não aceitamos tanto tormento

E essa luta?
A luta é diária
Para ganhar o pão e suportar esse circo que vemos na tevê
É falta de vacina
É falta de médico

Você tem que ver
E nessa história?
O que nós devemos fazer?
Estender
Estender
Estender

Sustentar e estender

Referências

ALMEIDA, M da C de. Educação e Democracia. Revistaeduquestão, v. 57, n. 52. 21 mar. 2019. Disponível em: <https://periodicos.ufrn.br/educacaoemquestao/article/view/17150> Acesso em 15 jul. 2021.

BARBIRATO, P. Podcasts e audiolivros consolidam mercado do áudio como alternativa de entretenimento durante a pandemia. Disponível em: <<https://www.correiobraziliense.com.br/diversao-e-arte/2021/02/4903872-pandemia-redefiniu-o-crescimento-do-consumo-de-podcasts-e-audiolivros.html>. Acesso 26/04/2021

BONDÍA, J. Larrosa. Notas sobre a experiência e o saber de experiência. Revista Brasileira de Educação, n. 19, p. 20-28, 2002.

______. Pedagogia Profana: danças, piruetas e mascaradas. Tradução de Alfredo Veiga-Neto. 5 ed; 3.reimp. Belo Horizonte: Autêntica Editora, 2016.

FELISBERTO, L. C. da Costa et al. O caminho se faz ao caminhar: novas perspectivas da Educação Médica no contexto da pandemia. Revista Brasileira de Educação Médica, v. 44, supl. 01, e156, 2020.

FREIRE, Paulo. Pedagogia da Autonomia. Saberes necessários à prática educativa. 14 ed. São Paulo: Paz e Terra, 2000.

HOOKS, B. Ensinando a transgredir: a educação como prática da liberdade. Tradução de Marcelo Brandão Cipolla. 2 ed. São Paulo: Editora WMF Martins Fontes, 2017.

Kischinhevsky, Marcelo.; Herschmann, Micael. A “geração podcasting” e os novos usos do rádio na sociedade do espetáculo e do entretenimento. In: ENCONTRO ANUAL DA COMPÓS, 16, 2007. Curitiba.

RAIMONDI, G. Antonio et al. Análise Crítica das DCN à Luz das Diversidades: Educação Médica e Pandemia da Covid-19. Revista Brasileira de Educação Médica, v. 44, supl 01, e135, 2020.