segunda-feira, fevereiro 26, 2024
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“Nossa luta vai ser nas ações e na comunicação”, diz o professor Guilherme Werneck (IMS), nomeado para cargo de gestão no MS

Professor Guilherme Werneck durante aula inaugural do semestre letivo, no auditório do IMS

O professor Guilherme Werneck (IMS) abriu o semestre letivo do IMS no último dia 10 com a aula “A nova Secretaria de Vigilância em Saúde e Ambiente do Ministério da Saúde: impressões pessoais em um tempo de reconstrução”. Nomeado para assumir a Coordenadoria de Desenvolvimento de Epidemiologia em Serviços (CGDEP), situada no Departamento de Articulação Estratégica de Vigilância em Saúde e Ambiente do Ministério da Saúde, Guilherme Werneck, que também leciona na UFRJ, abordou distintos desafios postos ao atual governo. 

Após quatro anos de um governo negacionista, que coincidiu com uma crise sanitária excepcional e dramática, o esforço de reconstrução passa especialmente pelo financiamento e pela comunicação com a população. Na entrevista abaixo, ele fala sobre o cenário encontrado, detalha as ações desenvolvidas e reflete sobre questões como hesitação vacinal e áreas politicamente sensíveis na saúde. “Temos que reconhecer o direito das pessoas à dúvida”, afirma o professor, que se mostra confiante mesmo diante da herança deixada pelo último governo, apontando inclusive medidas que restauraram o acesso a serviços que tinham sido prejudicados.

Leia abaixo a íntegra da conversa.

Instituto de Medicina Social: Quais trabalhos serão desenvolvidos pela CGDEP?
Guilherme Werneck: Temos quatro áreas de atuação. Uma voltada para a formação, iniciativas educacionais para expandir e qualificar a aplicação da Epidemiologia em Serviços de Saúde. Oferecemos desde cursos iniciais  para disseminar os conceitos básicos de Epidemiologia até os mais especializados que buscam qualificar os gestores que trabalham com análise de dados. Temos também propostas de apoio a cursos de mestrado profissional na área de Vigilância em Saúde. Então, atuamos desde a capacitação mais básica até a formação mais especializada. 

Há o eixo da pesquisa, voltado a apoiar a SVSA nas instâncias decisórias, sobre priorização, acompanhamento e monitoramento de pesquisas, e a tornar as pesquisas mais transparentes para as pessoas. Essa agenda da pesquisa busca facilitar a relação da SVSA com outros órgãos do Ministério da Saúde, os  governos federais, estaduais e municipais e a sociedade civil.

Temos também o eixo das publicações técnico-científicas. Estamos assumindo uma editoria científica da SVSA. Temos revistas, guias e avaliamos as publicações propostas no sentido de qualificá-las no que diz respeito à Epidemiologia.

O quarto eixo refere-se ao apoio e à realização de eventos na área de vigilância, abarcando sobretudo eventos nas áreas de Epidemiologia, Saúde Coletiva e Medicina Tropical, que têm um compromisso forte com a área de Vigilância em Saúde.

IMS: Passamos por quatro anos de um governo que conduziu um ataque deliberado ao Estado nos seus variados braços de atuação e de garantia de direitos. O que você encontrou na CGDEP?
GW: A CGDEP, em particular, teve a sorte de contar com a profissional no comando, Fátima Sonally, que tinha experiência em gestão. Não era uma pessoa tipicamente de Epidemiologia, mas tinha expertise na gestão de serviços, comprometida com o SUS. A gestão dela conseguiu, dentro de todas as limitações, manter e expandir algumas iniciativas, como o Programa de Formação em Epidemiologia (Profep) e a Revista Epidemiologia em Serviços de Saúde. Eu não tenho queixa. Ela e a equipe que atuaram nesse período demonstraram competência e compromisso. Eu não peguei terra arrasada na CGDEP, mas há espaço para grandes melhorias. Eu vejo maiores problemas em relação ao que depende de estrutura e apoio externo, especialmente o financiamento de nossas ações previstas. Nesse quesito, estamos pegando uma dificuldade orçamentária imensa. Mas, do ponto de vista da gestão, ainda bem que temos uma equipe competente e compromissada.

IMS: Na aula, você mencionou os desafios para a saúde após a gestão do último governo. É possível dimensionar esse desafio, diante de tantos ataques a ações contrárias a serviços e ações em saúde? É possível retomar o padrão de gestão anterior ao último governo e, ao mesmo tempo, reconquistar a confiança perdida em relação a temas como vacina, por exemplo?
GW: É um desafio imenso. Eu olho para a equipe que está no MS e estou muito confiante. As pessoas que compõem são muito qualificadas tecnicamente e comprometidas. Quando você olha os gestores, é nítido que são os profissionais que realmente deveriam estar naquele posto. A equipe é competente, experiente e está motivada. A Comunicação do MS está engajada e atuante. Foi lançada nos últimos dias a campanha de vacinação contra a Covid-19. A Beth Goulart (cuja mãe, a atriz Nicette Bruno, morreu com a doença em 2020) protagoniza uma das peças. Um vídeo simples e curto, falando da perda da mãe, mostrando o braço para vacinar e destacando a importância da imunização. A Comunicação do MS está muito preocupada em chegar nas pessoas e promover a confiança. E não é apenas a vacina. De fato, ela é o carro-chefe, mas temos outros aspectos e áreas para reaproximar a população. 

Vamos superar isso. Temos que ser sinceros. A questão da hesitação vacinal não é ilegítima. Temos que reconhecer o direito das pessoas à dúvida, de supor que a vacina não é efetiva, de ter medo da injeção, de questionar sobre efeitos adversos etc. As pessoas têm inseguranças e receios. É preciso reconhecer, dialogar e promover uma forma racional de enfrentamento do problema, que não desqualifique as dúvidas dos usuários, mas que seja convincente e acolhedora. Para mim, o enfrentamento às fake news não deve partir do princípio de que são, pura e simplesmente, um absurdo. Sim, muitas são mesmo absurdas, mas, por diversos motivos as pessoas acreditam nestas informações. Assim, chegar às pessoas dizendo a elas que é um absurdo elas acreditarem, obviamente, fecha portas e dificulta o diálogo. É preciso olhar e reforçar a mensagem positiva. Em alguns sentidos, fomos pegos pela indignação e ficamos presos na polarização. Precisamos, de alguma forma, ignorar essa postura e partir para a proposição e o esclarecimento.

Reconheço que vivemos um contexto complicado, não é um movimento brasileiro ou local. Somos um epicentro de um fenômeno mundial. Mas é possível combater. Vamos enfrentar dificuldades, dado que o atual governo é um governo de grande coalizão, de interesses diferentes. Sabemos das resistências que certas políticas, em certas áreas sensíveis, podem gerar.

IMS: Que, no caso, seriam…
GW: Saúde mental e Políticas de HIV/Aids e ISTs, por exemplo. São políticas que tenho certeza de que vão avançar, mas vão repercutir dentro da própria coalizão. É difícil, mas não podemos ficar parados tendo em vista o que foram os últimos quatro anos. Vamos nos engajar numa luta. Precisamos de uma comunicação direta com a população para desmistificar questões para que sejam reconhecidas como necessárias. Quando você olha uma pessoa com familiar usuário de drogas ou com problemas de saúde mental, isso é realmente uma situação muito difícil de lidar. Então, é natural que, quando apresentada a uma solução mágica – do tipo internação ou ida para uma comunidade terapêutica -, a pessoa ache bom, porque ela está sendo acolhida. Então, nós temos que acolher antes com nossas propostas que, neste caso, devem estar alinhadas com os princípios da reforma psiquiátrica e do SUS. Precisamos nos antecipar. Nossa luta vai ser nas ações e na comunicação.

IMS: E como fica a operacionalização das normas e ações que já estão estabelecidas e consolidadas, mas que foram negligenciadas e atacadas? Isso gera alguma perda na capacidade de gestão e de entrega dos serviços?
GW:
Não necessariamente. As normativas e regulamentações podem muito bem fluir. Determinados obstáculos não são o fim do mundo. Veja, por exemplo, a Farmácia Popular. O governo anterior estabeleceu uma normativa exigindo a apresentação de um receituário eletrônico. Em muitas situações, isso dificulta a vida de quem não tem acesso adequado à internet. Isso afeta especialmente populações mais pobres e periféricas. O que o novo Ministério da Saúde fez? Acabou com a normativa, não é mais obrigatório. O governo anterior criou diversas normativas que não acabavam com um certo direito, mas dificultavam o acesso. Precisamos, a partir de agora, pensar em formas de proteger normativas de canetadas deletérias que dificultem ou impeçam o acesso aos serviços e aos direitos do cidadão. 

IMS: Além da docência, você já foi coordenador da área de Saúde Coletiva na Capes. Como ocorreu o convite para assumir a CGDEP e o que ele significou na sua trajetória e para o IMS?
GW:
Quando recebi o telefonema da Ethel Maciel [secretária da Secretaria de Vigilância em Saúde e Ambiente (SVSA)], eu estava de férias. Ela é uma pessoa com quem tenho uma relação fraterna. Foi minha aluna no doutorado, uma profissional muito dedicada, inteligente e competente. Quando ela disse que queria conversar comigo, vi que tinha alguma coisa. Não estava pensando na possibilidade, fiquei um pouco em dúvida e conversei com a família. Mas Ethel foi muito perceptiva, me chamou para a posição que eu dificilmente recusaria.
Sempre tive a convicção de que cada um tem que oferecer o melhor que pode dar. Isso é mais forte no momento atual, após um governo negacionista na saúde. Minha família apoiou e estou muito animado. Estou há muito tempo na academia, docência e pesquisa. Sou um pouco inquieto e queria um desafio diferente. Penso que posso contribuir, e isso é muito importante para o IMS. Não sou a primeira pessoa do IMS a atuar em Brasília, longe disso. O IMS é um dos pilares do movimento da reforma sanitária brasileira que levou ao SUS e tem um histórico valioso na formação de profissionais para gestão.